A fé em um possível País Sage
Maria do Carmo Nino

 

 

“Não achar seu caminho numa cidade não significa grande coisa,

mas perder-se numa cidade como numa floresta requer toda uma educação.”

Walter Benjamin

 

"A paisagem é o último limite imóvel da percepção que eu tenho do que me rodeia". Esta evocação aristotélica como introdução aos trabalhos de Bruno Faria, me vem à memória pelo fato de notar, sob a marca de um certo estado de ansiedade, a vontade deste artista de querer abordar sob o signo da urgência, e com a apropriação de recursos intrínsecos à arte, a necessidade de refletirmos criticamente sobre nossa condição no planeta como o lugar onde vivemos, tanto sob o ponto de vista estético (envolvendo nossos sentidos),  quanto através do viés  ético, onde o binômio "ser /estar" no mundo situa-se no âmago de todo o nosso comportamento, de nossas escolhas e atos.

 

A noção espacial de lugar encontra na expressão país (origem da palavra “paisagem”), algo que aponta para além do seu uso mais comum (pátria),como se fosse possível pensar em um território que transcenda uma limitação geográfica específica, onde o horizonte, como a linha de encontro entre o céu e a terra e um dos elementos constitutivos da paisagem, torne-se uma totalidade visível na qual todo lugar se encontre e manifeste suas singularidades, às quais torna-se imprescindível decodificar para agir.

 

A cidade em sua floresta de signos é assumida por Bruno nesta exposição,como o cenário emblemático de combate entre o peso dos seus numerosos tipos de problemas, e uma real vontade política de resistência às opressões cotidianas. Conflitos tanto de ontem como de hoje, como observamos na obra Estudo para Recife, ou que vão da violência, abordada poeticamente em Lux, à economia, como se nota em Panorama e em Terravista, vislumbradas neste conjunto através de uma reflexão que se dá na própria linguagem da arte, através da reinvenção de uma das suas categorias mais clássicas de representação.

 

Na esteira da expressão do poeta francês Francis Ponge o pays sage, quer compreenda o espaço natural ou aquele que sofreu intervenção humana, permanece principalmente como a expressão que designa o desejo e a esperança no horizonte de uma postura lúcida e sábia acerca de nosso papel no mundo, constitutiva de nossa função como habitantes socialmente conscientes e que Bruno encarna duplamente, como artista e como cidadão.